No meu consultório de atendimento online, o paciente costuma chegar depois de sentir crises com sintomas físicos muito intensos. Algumas pessoas chegam até a ir para a emergência, com certeza de que estão infartando ou enlouquecendo. Na emergência, fazem os exames e não encontram nada compatível. Além de quem procura a emergência, tem gente que fica sofrendo em casa e nem chega a buscar ajuda, ou só busca depois de descobrir que existe consulta psiquiátrica online. Mas conforme as crises vão ficando mais frequentes, o medo de uma nova crise também aumenta, e os pacientes vão se isolando cada vez mais, evitando atividades com medo de desencadear um novo episódio. O transtorno do pânico tem tratamento, inclusive por teleconsulta, e o objetivo é justamente devolver essa liberdade.

Por que o corpo reage assim?

Quando o paciente vai à emergência e faz os exames, fica mais fácil de explicar o que aconteceu, porque as causas orgânicas já foram excluídas. Mas quando a pessoa está sentindo aquilo pela primeira vez, a descarga de adrenalina é tão grande que o corpo tem certeza de que é um infarto. É o mecanismo de luta ou fuga sendo ativado. Explico aos meus pacientes, presencialmente ou por videochamada, que o cérebro de todos nós tem esse mecanismo, que era extremamente útil milênios atrás: diante de um perigo real, ele libera uma enxurrada de adrenalina no corpo, gerando os sintomas físicos e um medo muito intenso. O ataque de pânico é esse mesmo mecanismo disparando sem um perigo evidente, às vezes por um estresse do dia a dia, às vezes por algo que nem conseguimos identificar.

Como os gatilhos vão se formando?

Depois de algumas crises, a pessoa passa a relacionar o que estava fazendo no momento com a crise em si. Se teve uma crise no shopping, por exemplo, pode associar o fato de ter ido ao shopping àquela crise, e passa a ter muito medo de voltar lá e ter uma nova. Com isso, o próprio shopping vira um gatilho. Esse processo pode se repetir em qualquer lugar: faculdade, trabalho, igreja, ônibus, parque, mercado. É um dos temas que mais trago à tona durante a consulta online, porque mapear os gatilhos é essencial para o tratamento.

Como faço a avaliação na consulta online?

Busco entender, na teleconsulta, principalmente em que contexto veio a crise, o que estava acontecendo naquele dia, como foram os sintomas físicos, quanto tempo duraram, se a pessoa precisou ir para a emergência, se já tinha tido crises antes, qual a frequência atual, horários e gatilhos. Também preciso saber como está a ansiedade basal da pessoa, se ela está passando por algum período de adaptação. Avalio a rotina, o estresse ao longo do dia, a qualidade do sono, o uso de substâncias psicoativas, incluindo álcool, cigarro, cafeína, suplementos e remédios para emagrecer, além das comorbidades clínicas e psiquiátricas. Toda essa investigação é conduzida normalmente por teleatendimento, com o mesmo cuidado de uma consulta presencial.

Como funciona o tratamento por teleconsulta?

O tratamento farmacológico se divide em dois momentos: o de emergência, que visa abortar a crise que está acontecendo naquele instante, e o profilático, que tem como objetivo impedir novas crises no futuro. O grande desafio é que o tratamento profilático demora algumas semanas para atingir seu efeito total, e alguns pacientes desistem antes de ter esse resultado. Por isso busco cuidar do curto e do médio prazo ao mesmo tempo: trazer alívio já desde o início, mas também prevenir novas crises, com receita digital emitida na própria consulta online. Além do tratamento farmacológico, a psicoterapia tem um papel fundamental, e também pode ser feita à distância.

Mitos que costumo desfazer na consulta

Muitas pessoas acham que basta tomar o remédio “abortivo” nos dias em que têm crise, sem fazer o tratamento profilático, e assim nunca alcançam uma melhora sustentada. Outro ponto importante é que antes de considerar uma medicação como uma “falha terapêutica”, é preciso garantir tempo e dose adequados. Muitos pacientes chegam à consulta online dizendo que já tomaram duas ou três medicações e não melhoraram, mas ao avaliar, costumo notar remédio inadequado, dose inadequada ou tempo de tratamento insuficiente. Só numa consulta psiquiátrica completa, presencial ou por teleconsulta, é que consigo avaliar todas essas questões.

Quando procurar ajuda?

Procure avaliação, presencial ou por teleconsulta, se você já teve mais de uma crise com sintomas físicos intensos, se está evitando lugares ou atividades por medo de uma nova crise, ou se sente que seu círculo de vida está encolhendo por causa disso. Se você já foi à emergência, fez exames e não encontraram nada, isso não significa que não há nada para tratar: pelo contrário, é um bom momento para buscar uma consulta psiquiátrica online.

Se você está passando por um momento de sofrimento emocional intenso, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, pelo telefone 188 e por chat, 24 horas por dia.

Perguntas frequentes

Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, e não substitui uma consulta médica. O diagnóstico e o tratamento do transtorno do pânico devem ser feitos por um profissional qualificado, considerando o histórico individual de cada pessoa.

Revisão técnica: Dr. Rômulo Kunrath | Psiquiatra | CRM-PB 14932 | RQE 9681